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Vidas Algoritmizadas:
Subjetivação e Neoliberalismo

        A realidade digital tornou-se uma dimensão onipresente da vida contemporânea, atravessando práticas sociais, modos de comunicação, processos de trabalho e novas formas de subjetivação. Conectar-se à rede já não constitui apenas um ato técnico ou comunicacional, mas um gesto de inscrição de si em sistemas de codificação contínua, a partir dos quais se desencadeiam processos permanentes de análise, classificação, indução e previsão de ações. Os sistemas baseiam-se em Inteligência Artificial (IA) e, como observa Lindenmeyer, em “Os paradoxos da Inteligência Artificial (IA), pulsionalidade e o psicanalista”, configuram-se como procedimentos “que mimetizam capacidades cognitivas humanas [...] capazes de aprender em função dos dados que lhes são fornecidos”.

        Essa realidade digital pode ser denominada, para Byung-Chul Han em Infocracia, como regime de informação, uma “forma de dominação na qual informações e seu processamento por algoritmos e inteligência artificial determinam decisivamente processos sociais, econômicos e políticos” (Han, 2022, p. 7). Nesse cenário, a centralidade recai sobre os dados produzidos pelos usuários e sobre as operações algorítmicas que os transformam em perfis, padrões e previsões. A algoritmização da existência implica, assim, processos de modelagem e categorização que tornam os sujeitos legíveis, previsíveis e administráveis. É nesse campo de previsibilidade a partir dos dados extraídos dos usuários, que se pode falar em gestão da produção e do sofrimento psíquico e da ampliação das formas psicopatológicas relacionadas com as políticas neoliberais.

        Com o tema geral, Vidas algoritmizadas: subjetivação e neoliberalismo, abre-se para a reflexão sobre as formas pelas quais a extração de dados e a indução algorítmica pode fomentar novos processos de subjetivação e de sofrimento psíquico. Relações entre objetos digitais e realidade psíquica; a algoritmização da vida implica em novas formas de gozo; governamentalidade algorítmica; e de que modo as big techs e a racionalidade neoliberal atualizam as formas de produção do capital, atravessando a subjetividade pela lógica da mercantilização da vida.

        Como se pode observar, múltiplas frentes discussões, em diferentes campos de saber, podem ser mobilizadas: seja pela psicanálise, com o discurso capitalista caracterizado pelo enfraquecimento dos laços sociais e pela captura do gozo; seja pela perspectiva foucaultiana, com a noção de governamentalidade algorítmica e neoliberal; seja pelas teorias críticas, com os debates sobre colonialismo de dados, capitalismo de vigilância, exploração da atenção e mercantilização das experiências subjetivas. Essas abordagens permitem compreender a algoritmização da vida como fenômeno simultaneamente tecnológico, político, econômico e psíquico.

        É em torno dessa temática geral que este evento se mobiliza e propõe reunir pesquisadores e estudantes de diferentes países da américa latina, para refletir sobre o nosso tempo, as nossas questões, os modos pelos quais nos constituímos em sujeitos e os desafios frente à algoritmização da vida e da racionalidade neoliberal.

 

Observação:

Este tema é também do dossiê com chamada aberta na revista Tesis Psicológica, Faculdade de Psicologia da Fundación Universitaria Los Libertadores, de onde originou o evento. 

Referências

 

HAN, B.-C. Infocracia: digitalização e a crise da democracia. Petrópolis: Vozes, 2022.

LINDENMEYER, C. Os paradoxos da Inteligência Artificial (IA), pulsionalidade e o psicanalista. Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., São Paulo, 2025, volume 28.

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